Nos últimos dois anos, a inteligência artificial passou de curiosidade tecnológica a presença cotidiana nas redações brasileiras. Grandes grupos de mídia já usam ferramentas de IA para transcrição de entrevistas, geração de resumos, sugestão de pautas e até produção de textos sobre resultados esportivos e dados financeiros. Mas até onde vai — e deve ir — essa integração?
A pergunta não tem resposta simples, e o debate dentro das redações está longe de ser consensual. De um lado, gestores enxergam na IA uma forma de aumentar a produtividade em um setor que enfrenta pressão econômica crescente. Do outro, jornalistas alertam para riscos que vão da perda de empregos à erosão da credibilidade.
O que as redações estão fazendo
Um levantamento informal realizado pela Gazeta do Amanhã com 15 veículos de comunicação de diferentes portes mostrou que 11 deles já utilizam alguma ferramenta de IA no processo editorial. Os usos mais comuns são transcrição automática de áudios, verificação básica de dados e geração de primeiros rascunhos para notícias de rotina.
Nenhum dos veículos consultados disse publicar textos integralmente gerados por IA sem revisão humana. Mas a linha entre "assistência" e "geração" está ficando cada vez mais tênue.
A perspectiva dos jornalistas
"A IA é boa para tarefas mecânicas. Mas jornalismo de verdade exige julgamento, contexto, empatia. Isso não se automatiza", diz Rodrigo Castilho, repórter investigativo com 20 anos de carreira. Ele não é contra o uso da tecnologia, mas defende que as redações precisam de políticas claras sobre o que pode e o que não pode ser delegado às máquinas.
Já a editora de dados Camila Fonseca tem uma visão mais pragmática: "Eu uso IA para processar planilhas enormes em minutos. Isso me libera tempo para fazer o que realmente importa: interpretar os dados e contar a história por trás deles."
O que está em jogo
Para além do debate interno, há questões maiores em jogo: a confiança do público, a responsabilidade editorial e o futuro do emprego no setor. Sindicatos de jornalistas já pedem regulamentação, e o Conselho Federal de Jornalismo deve publicar ainda este ano um documento com diretrizes éticas para o uso de IA nas redações.
O debate é urgente. E, ao contrário do que alguns temem, ele não será resolvido por um algoritmo.