Economia

Startups brasileiras captam recorde em 2026 apesar do cenário global incerto

O ecossistema de startups brasileiro registrou no primeiro trimestre de 2026 o maior volume de captação da sua história: R$ 8,4 bilhões distribuídos em 312 rodadas de investimento. Os dados, divulgados pela Associação Brasileira de Startups, surpreendem num contexto em que mercados como Estados Unidos e Europa registraram queda nos aportes ao longo do mesmo período.

O destaque vai para os setores de fintechs e agtechs, que juntos concentraram 58% do total captado. A explicação, segundo analistas, está na combinação de um mercado interno robusto com a crescente demanda por soluções financeiras e agrícolas digitais em um país de dimensões continentais.

"O Brasil tem uma vantagem competitiva real em agtech porque a agricultura é um setor estratégico e há décadas de conhecimento acumulado. Quando você combina isso com tecnologia, o potencial é enorme", explica Felipe Drummond, sócio de um fundo de venture capital com sede em São Paulo.

Quem está investindo

Fundos estrangeiros respondem por 43% dos aportes, com destaque para investidores norte-americanos e europeus que enxergam no Brasil uma alternativa atraente diante da saturação de outros mercados emergentes. Fundos nacionais, por sua vez, têm se profissionalizado rapidamente — o número de gestoras de VC com sede no Brasil dobrou nos últimos quatro anos.

Entre as rodadas mais expressivas do trimestre, destaca-se o aporte de R$ 420 milhões recebido por uma fintech de crédito rural com sede em Ribeirão Preto, e os R$ 310 milhões captados por uma plataforma de seguros agrícolas baseada em dados de satélite.

Desafios à frente

Apesar dos números positivos, especialistas alertam para riscos. A taxa de juros ainda elevada encarece o capital e pode pressionar startups em estágios iniciais que dependem de dívida para crescer. Além disso, a escassez de talentos técnicos — especialmente engenheiros de software e cientistas de dados — segue sendo um gargalo recorrente.

"Os números são animadores, mas precisamos de políticas públicas que sustentem esse crescimento. Formação de talentos, ambiente regulatório favorável à inovação e acesso a crédito para pequenas startups são fundamentais", pondera a economista Renata Pinheiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

O relatório completo da Associação Brasileira de Startups será divulgado no próximo mês e deve incluir projeções para o restante do ano.

MS

Mariana Souza

Repórter especializada em economia e negócios. Cobriu a crise de 2015 e acompanha o mercado financeiro brasileiro há mais de oito anos.